“Queremos um setor que não precise de ser salvo. Que seja estruturalmente forte, competitivo e orgulhoso do que representa.” Foi com esta ambição que Carlos Moura, presidente da Direção da AHRESP, apresentou no Congresso Nacional AHRESP 2026 a Visão Estratégica da Restauração — Horizonte 2035, colocando no centro do debate a necessidade de dar às empresas condições para crescer, ganhar dimensão financeira, investir nas pessoas e tirar partido da tecnologia.
A apresentação, realizada em conjunto com Carlos Abade, presidente do Turismo de Portugal, foi um dos momentos centrais de mais de 20 horas de Congresso, que reuniram no Centro de Congressos do Arade, em Lagoa, 37 oradores, mais de 1200 participantes e 31 patrocinadores e parceiros, nos dias 22 e 23 de outubro. Um encontro particularmente simbólico no ano em que a AHRESP celebra 130 anos.
Carlos Abade anunciou que o Turismo de Portugal e a AHRESP vão lançar, em breve, um programa de capacitação de liderança dirigido à restauração, com o objetivo de reforçar competências de gestão e contribuir para o aumento da produtividade. O presidente do Turismo de Portugal revelou ainda que a gastronomia será um dos dez ativos estratégicos da Estratégia Turismo 2035, reforçando o seu papel na diferenciação e valorização da oferta turística portuguesa.
Um setor grande mas ainda frágil
A estratégia apresentada por Carlos Moura partiu dos resultados do estudo ‘Impacto Económico da Restauração’, elaborado pela EY-Parthenon, que demonstra simultaneamente a dimensão económica deste setor e as fragilidades estruturais que continuam a limitar as empresas.
Quando considerada toda a cadeia de valor, o setor gera 23,4 mil milhões de euros de VAB, o equivalente a 7,6% do PIB, e, por cada euro de valor acrescentado gerado nos estabelecimentos, são mobilizados 2,5 euros na economia. O impacto total no emprego ascende a 523 mil postos de trabalho, quase 10% do emprego nacional. Contudo, a margem líquida das empresas não ultrapassa, em média, 3%, face a 8,2% no conjunto da economia.
É precisamente esta diferença entre dimensão económica e robustez empresarial que está na origem da estratégia apresentada pela AHRESP.
“Escala não é solidez”, sublinhou Carlos Moura, defendendo que o setor não precisa de políticas destinadas a “salvá-lo”, mas de condições estruturais que lhe permitam crescer, capitalizar-se, aumentar a produtividade e melhorar as margens.
Entre as reivindicações reiteradas pela AHRESP estão uma maior estabilidade e previsibilidade das políticas públicas e o restabelecimento da taxa intermédia de IVA para as bebidas alcoólicas e refrigerantes, atualmente tributados à taxa normal de 23%.
Cinco ações concretas para chegar a 2035
A Visão Estratégica apresentada no Congresso assenta em cinco grandes ações: a criação de um Observatório da Restauração, que permita ao setor dispor de informação atualizada e previsões apoiadas por inteligência artificial; um Índice de Sustentabilidade Competitiva e um Relatório Anual de Impacto; um Fundo Mutualista Setorial e uma Linha de Microcrédito; uma nova Carreira na Restauração e Smart Careers; e a criação da Marca Restauração de Portugal, destinada a valorizar qualidade, autenticidade, sustentabilidade e produto português.
A estratégia estabelece metas mensuráveis para 2035, entre elas um Fundo Mutualista com mais de 50 milhões de euros, uma redução de 40% dos encerramentos por insolvência, rotatividade laboral inferior a 35%, 50 mil trabalhadores abrangidos pelas Smart Careers e 75% dos estabelecimentos com gestão digitalizada.
A digitalização e a inteligência artificial atravessam toda a estratégia, mas o Congresso deixou também uma conclusão transversal aos dois dias: a tecnologia não substitui o conhecimento humano — aumenta a capacidade de o utilizar.
A própria apresentação de Carlos Moura tornou essa relação visível através da Lume, uma avatar criada para o Congresso, que confrontou o Presidente da AHRESP com perguntas sobre a fragilidade das empresas, a fiscalidade, o impacto da inteligência artificial e as metas para 2035.






