Restauração: a realidade

Abr 22, 2026

O setor da restauração em Portugal atravessa um momento paradoxal: mantém-se como um dos pilares da economia nacional, do emprego e da atratividade turística, mas fá-lo num contexto de pressão estrutural crescente, de margens severamente comprimidas e de encerramentos silenciosos, sobretudo entre micro e pequenas empresas familiares

UM SETOR DE ENORME CAPILARIDADE E FUNÇÃO SOCIAL

Em 2024, último ano com dados públicos disponíveis do INE, o setor contava com 74.524 empresas e 324.130 trabalhadores, números que, isoladamente, sugerem um setor dinâmico, mas que escondem uma realidade estrutural determinante: 91% são microempresas e 51% são Empresários em Nome Individual (ENI). Esta natureza fragmentada e de micro dimensão, torna a análise agregada e global insuficiente para retratar os problemas reais de quem trabalha no terreno.

Muitos destes negócios são de proximidade, de base familiar e desempenham uma função social acrescida – não só pela criação do próprio posto de trabalho, mas também pela presença nos territórios de baixa densidade, onde muitas vezes são o único ponto de referência comercial e social da comunidade.

Por natureza, estas empresas dispõem de menor capacidade negocial junto de fornecedores, de estruturas financeiras mais expostas e de uma resiliência limitada face a aumentos de custos persistentes. São, por isso, as primeiras a sentir qualquer deterioração das condições de operação – e as últimas a ser visíveis nos indicadores oficiais quando fecham.

TRÊS ANOS DE PRESSÃO ACUMULADA SOBRE OS CUSTOS

Ao longo dos últimos anos, o setor foi confrontado com uma acumulação de adversidades, despoletada pelos sucessivos conflitos internacionais. Os dados do INE documentam a amplitude desta pressão:

  • Alimentação: +4,8% em 2025, a acelerar para +6,4% em março de 2026. Legumes (+28%), ovos (+24%), peixe seco (+24%) e carne (+8%).
  • Energia: -0,2% em 2025, mas +5,7% em março de 2026.
  • Trabalho: remuneração média +23% entre 2022 e 2025, de 938€ para 1.152€.
  • Procura: menos visitas, menor consumo médio por refeição.

As empresas têm vindo a ajustar os preços de venda, mas muito abaixo dos aumentos expressivos a que têm sido sujeitas. O resultado é um esmagamento das margens de negócio e sérias dificuldades em sustentar os negócios e os postos de trabalho.

A CRISE QUE AS ESTATÍSTICAS NÃO MEDEM

A análise agregada e global do setor – frequentemente utilizada em relatórios macroeconómicos – tende a ocultar assimetrias profundas. Enquanto algumas empresas conseguem beneficiar de economias de escala e de maior poder negocial, milhares de micro e pequenos restaurantes operam em condições estruturalmente mais frágeis.

Acresce que os indicadores oficiais de destruição empresarial captam apenas os encerramentos formais. Os “encerramentos silenciosos”, que não são contabilizados, geram uma invisibilidade estatística que subestima sistematicamente a dimensão real das dificuldades no terreno.

UM SETOR QUE PRECISA DE SER PRESERVADO

A restauração e similares movimenta toda a cadeia de valor da economia nacional – do setor primário ao terciário – e desempenha um papel insubstituível no tecido social, turístico, económico e de coesão do país.

A AHRESP apela a que as políticas públicas possam ir além dos indicadores médios e respondam à realidade de quem opera no terreno: o microempresário que não tem condições para ajustar o preço de venda à subida efetiva dos seus custos, que vê diminuir os seus clientes e o consumo médio, e que luta diariamente para sustentar o seu negócio e os seus postos de trabalho.

Este setor, de enorme importância para a economia nacional, tem de ser preservado. São necessárias condições reais para que estas empresas possam manter as suas atividades – e para isso, é indispensável que a análise do setor vá além das médias e reconheça a pressão real sobre as margens das microempresas.

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