A voz dos empresários Artigo3

Mar 22, 2022

Em que situação se encontra os negócios da restauração e similares e do alojamento turístico ao fim de dois.

Em que situação se encontra os negócios da restauração e similares e do aljoamento turístico ao fim de dois anos de pandemia? Quais as áreas de intervenção prioritária do Governo? As respostas de 19 empresários, de Norte a Sul do país, refletem a assimetria dos contextos de negócio a nível geográfico, e não só, e o desejo comum de um alívio da carga fiscal para fazer face à retoma. As tesourarias estão vazias e a Ómicron justifica uma ajuda específica pelo impacto negativo num período em que praticamente todas as ajudas às empresas já tinham sido retiradas. Não é a AHRESP que o afirma, é a voz dos empresários que sobreviveram e se reinventaram.

Principais preocupações

  • Falta de recursos humanos que comprometem o funcionamento dos negócios
  • Aumento exponencial dos preços da energia, combustível e matérias-primas
  • Ausência de um contexto fiscal que permita que o país concorra em igualdade de circunstâncias com os seus mais diretos concorrentes, nomeadamente Espanha
  • Promoção eficaz do destino Portugal com políticas descentralizadoras e focadas em todo o território nacional

As medidas que os empresários pedem ao governo

  • Apoios diretos à tesouraria
  • Alívio da Carga Fiscal como forma de equilibrar a escalada dos preços de energia, combustível e matérias-primas
    • Redução da TSU, IRC/IRS
    • o Redução do IVA / Taxa intermédia do IVA em todos os serviços de restauração e bebidas
  • Apoios à contratação e manutenção dos postos de trabalho
  • Diminuição dos tempos de subsídio de desemprego
  • Flexibilização dos contratos laborais
  • Revisão das estratégias de formação das escolas do Turismo de Portugal e escolas profissionais do IEFP para inserção dos alunos formados no mercados e trabalho do turismo


Ana Gomes, Alojamento Local Casas de Cá (Coimbra)

  1. Abrimos a casa em Janeiro de 2020 e o que perspetivámos como negócio não se concretizou. Acreditamos que será viável, mas só no final de 2022, depois do verão e final do ano, iremos perceber. A nossa realidade é um bocadinho peculiar, eu não consigo dizer se estamos com uma quebra de 50%, não tenho histórico.
  2. São muito importantes apoios ao nível da manutenção dos postos de trabalho, que é um dos nossos maiores custos. Defendo estratégias de promoção do Turismo de Portugal do nosso País como um destino premium, seguro e que possa voltar a semear na cabeça daqueles que pretendem escolher um destino de férias, que Portugal é uma opção segura. Neste contexto, é importante que essas estratégias sejam mais descentralizadoras do turismo de massas em Lisboa/Porto, no sentido de reduzir a concentração do número de turistas nesses pólos e conseguir promover as outras cidades de média e pequena dimensão como destinos turísticos que conseguem garantir segurança e todo o conforto a quem nos visita.É altura de retomarmos a atividade e precisamos de turistas e hóspedes, não só do Turismo interno: na minha realidade, mais de 90% é turismo externo, portanto é preciso realmente receber turistas e acho que essa tem que ser a aposta do nosso Governo, conseguir voltar a devolver a confiança a quem nos visita. É que mais precisamos para nos conseguirmos aproximar dos níveis de faturação que tanto desejamos.

Ana Cristina Gaspar, Hotel S. Luís (Leiria)

  1. Tratando-se de um Hotel que está muito direcionado para o mercado corporate, encontramo-nos numa fase de estagnação. Nos últimos 2 anos de pandemia, a nossa taxa de ocupação desceu +/- 50%, provocando uma quebra de faturação de aproximadamente +/-50%. Foi um período marcado por um cancelamento constante de reservas que foi claramente seguindo a evolução da pandemia e, acima de tudo, a rigidez e/ou flexibilização das restrições que foram sendo impostas no país, muitas delas, confusas e de última hora (testes ao fim de semana). A título de curiosidade, podemos referir que apenas recebemos o 1º grupo em outubro de 2021.A continuidade da nossa atividade estará sempre dependente da procura, quer do mercado corporate, interno e externo, e aqui, obviamente, não podemos ser alheios à nova realidade de teletrabalho que, em alguns setores, se instalou para ficar, e também das reservas nos meses de verão, do turismo, onde se destacam os grupos.
  2. A preocupação deste executivo deverá estar centrada na canalização de apoios públicos para a capitalização das empresas, para o reforço, da tesouraria das empresas viáveis. Para além disso, quer numa perspetiva de curto quer de médio prazo, acho essencial que sejam repensadas certas questões que são transversais a outros setores da atividade, como a fiscalidade, nomeadamente, ponderando a redução da TSU e da taxa de IRS/IRC, apoios ao investimento a fundo perdido e que os fundos comunitários cheguem às empresas e a flexibilização laboral, nomeadamente, relativa à contratação de trabalhadores.

Bruno Peixoto, Apúlia Praia Hotel (Esposende)

1. Tivemos uma quebra de cerca de 70% no primeiro ano, em 2020. Em 2021 conseguimos alcançar um equilíbrio maior porque temos um hotel diferente, fruto de um investimento de mais de meio milhão de euros, em 2019. Se por um lado ajudou a equilibrar o ano passado, por outro, perspetivávamos um retorno desse investimento a três anos, o que não vai acontecer. Essa janela irá aumentar para cinco/seis anos. Temos uma grande questão que tem haver com os recursos humanos e a falta de mão de obra deste setor que não se justifica só por salários, com o aumento ou falta deles, há algo que tem que ser visto desde trás que tem a ver com a formação de base.

2. A questão dos recursos humanos tem que ser olhada com muita atenção: temos proximidade a três universidades e meia dúzia de escolas profissionais de turismo, formam-se alunos que depois não vêm para este setor. Creio que a responsabilidade não seja apenas dos hoteleiros. Alguma coisa está a acontecer aos milhares de alunos formados na área do turismo, seria interessante perceber quantos estão formados e quantos efetivamente entram na carreira. É um déficit brutal.

Fala-se muito nos centros urbanos e na sua capacidade de promoção, mas as entidades de turismo locais, municipais têm enormes responsabilidades e nem sempre as pessoas adequadas para pensarem um destino turístico com uma oferta integrada, com estratégias de combate à sazonalidade. Não chega culpar o Governo, era preciso que localmente houvesse um equilíbrio maior das ofertas.

Bruno Raimundo, Hotel O Cante (Évora)

1. Não vai de acordo ao que seria a expetativa de há dois anos e houve desequilíbrio nos apoios no primeiro e segundo ano da pandemia: em 2020 houve apoio por parte do Governo, não um suporte perfeito, e 2021 sem suporte. A verdade é que ficou tudo na expetativa e as medidas não foram ajustadas ao impacto económico da pandemia. Passados dois anos, no final de 2021, o negócio de turismo simplesmente desapareceu. A expetativa é que a partir de março/abril o turismo já retome de alguma forma. A verdade é que isto é tudo especulação, não conseguimos dizer se estamos a falar dos mesmos números de 2019, mas existe pelo menos um ânimo, uma luz ao fundo do túnel.

2. Eu diria que tem que olhar numa 1ª fase para as dificuldades que a hotelaria tem vindo a ter, ao nível de mão de obra e de apoios, para que as empresas se consigam manter ou estabilizar: estamos a falar quase de dois anos em que quem apostou em hotelaria sofreu um enorme impacto económico. Numa 2ª fase, o Governo deve investir mais na divulgação do destino Portugal é crucial. Estas seriam as duas principais áreas onde deveria haver mais suporte.

Daniel Mota, Hotel Santarém (Santarém)

1. Tivemos altos e baixos desde que a pandemia começou. Em 2020, em meados de março, tivemos que fechar para reabrir em junho seguinte e aí fizemos um bom verão e praticamente foi um ano a vapor, a ‘gasolina’ ainda não tinha chegado. Em 2021 já tivemos ‘gasóleo’, falando agora neste tema que está muito atual que é o dos combustíveis e a subida preços que estão a dificultar a nossa vida. Já não é só é só a pandemia, agora também temos que conviver com o aumento dos custos de energia e combustíveis. Em 2021, registámos algum aceleramento, mas ainda longe de 2019, deu para sobreviver. Mas apenas até novembro, porque com o surgimento da variante Ómicron, que continua a impactar negativamente este início de ano, o ponto alto da passagem de ano foi muito fraco.

2. Espero que o Governo levante muito rapidamente as restrições, de forma a que se retomem as liberdades e a circulação de pessoas e se possam fazer projetos e planos a médio e longo prazo. É impossível ter perspetivas quando gerimos um negócio que está constrangido pelas restrições que vão e vêm, sempre a funcionar com uma gestão de curto prazo. Pessoalmente, concordo com a exigência de apresentação do certificado de vacinação ou recuperação. Está mais do que provado que a vacina é eficaz, portanto é uma medida de proteção para todos. E nesse aspeto, quanto ao mercado interno não há

preocupações face à alta taxa de vacinação, o que já não acontece com determinados mercados emissores.

Eduardo Alexandre, Restaurante Praia Grande (Albufeira)

1. O restaurante está aberto, mas parado, como é normal no Algarve nesta altura do ano. De qualquer forma, a procura ainda é baixa por causa das restrições sanitárias. Em 2020 tive uma quebra de 50% e os apoios do Estado foram nada. O ano passado correu melhor, o agosto, o setembro e o outubro, mas ainda registei uma quebra de cerca de 35%. A seguir à passagem do ano ainda houve algum movimento no Algarve, mas cerca de metade de 2019. No Algarve todos estamos esperançados que no verão haja uma melhoria. Esperamos que comece na Páscoa, todos esperam que assinale a recuperação. Mas para já, este inverno está reduzido a mais de 50%.

2. Para já era a questão do IVA que já se reclama há bastante tempo: baixar o IVA para 6% ou 12%. Retirar, pelo menos os 23% nas bebidas, essa era uma medida fundamental. Infelizmente, já terminaram praticamente todos os apoios no âmbito da COVID-19 e seria importante repor.

Fábio, O Melhor Croiassant da minha Rua (Setúbal)

1. Tinha muitos investimentos já a acontecer quando se deu a pandemia e tive que tomar uma decisão muito importante: continuar ou parar com o investimento. Decidi continuar com quatro projetos. É uma luta muito grande para conseguirmos ultrapassar todas as situações que têm sido colocadas pontualmente. Nós temos conseguido ultrapassar, com muita resiliência nossa e dos colaboradores, para conseguir manter e conservar os nossos postos de trabalho.

Estamos otimistas de acordo com o que se passa noutros países, que têm vindo a aliviar e até eliminar as restrições que têm sido impostas e a começar a encarar a pandemia como uma coisa com que temos que conviver, portanto no futuro vai acabar por ser uma coisa normal, vamos ter que viver com ela.

2. É importante o Governo rever a carga fiscal que existem nas atividades económicas, e não só na restauração, o que limita muitas vezes os investimentos e a criação de emprego. Obviamente, queremos ter retorno e criar postos de trabalho, criar condições que nos permitam crescer e muitas vezes a carga fiscal é uma limitação muito grande.

O Governodevia legislar no sentido de haver maior flexibilidade na contratação, para podermos dar outras condições aos colaboradores. E acredito que não deva haver tanta proteção aos maus colaboradores, que tantas vezes afetam o crescimento económico das empresas, mas temos que continuar a cumprir a nossa parte.

Fernando Batista, Taberna do Quinzena (Santarém)

1. O mês de dezembro foi muito mau, o mês de janeiro continuou, as coisas estão a abrir agora um bocadinho, no entanto ainda se nota muita pouca afluência de pessoas porque temos um milhão de pessoas em casa. Penso que a tendência será para melhorar, embora ao fim de dois anos de pandemia e com o aumentos dos custos de energia, combustível e matérias-primas, as pessoas, tal como as empresas, estão descapitalizadas e tendem a consumir menos nos nossos estabelecimentos. Poderá haver falta de dinheiro para conseguir que o negócio ande para a frente.

2. A questão do apoio à contratação e alguma benesse em relação aos impostos porque continuamos com uma sobrecarga de impostos muito grande. O Governo deveria ajudar na contratação de pessoal, porque não está fácil encontrar pessoas para trabalhar, e aliviar a carga fiscal. Acho que a restauração tem que ter incentivos especiais porque trabalharam muito mal e isso ainda vai continuar a sentir-se. Para as empresas que faturaram muito menos do que em 2019, deveria haver algum tipo de apoio, pelo menos nesta fase de arranque e de normalização.

Filipe Sales, Alojamento Douro Green (Cinfães)

2.Acabar com o isolamento das pessoas que estão negativas à COVID-19. Outra medida era a promoção de cada território. No nosso caso, pertencemos ao distrito de Viseu, com o qual não temos absolutamente ligação comercial ou de outra natureza, porque estamos com todas as ligações rodoviárias para o Grande Porto. Não recebemos clientes da zona centro da nossa capital de distrito, mas do Grande Porto, de Lisboa, etc. Cada território tem as suas especificidades, ninguém vai ao Algarve para comer lampreia, e ninguém vem para o Douro fazer praia. Diria que o Governo terá que olhar para o que cada pequeno território tem para oferecer e dinamizar uma estratégia específica e integrada. Estamos a 16 quilómetros dos Passadiços do Paiva, uma das principais atrações turística do país e da Europa, mas não temos condições rodoviárias para lá chegar. É um bom exemplo de falta de estratégia para o território.

Frederico Santos, TBAC (Caldas da Rainha)

1. A pandemia afetou profundamente o meu negócio, com um impacto na faturação superior a 70%. Como abri a empresa no final de 2019 não tive direito a praticamente nenhum apoio, pois não tinha histórico, que era uma das condições obrigatórias para aceder às medidas que o Estado libertou. Fiquei excluído dos apoios em 2020. Resumindo, tive que recorrer a financiamento para manter a casa aberta. Em 2021 já tive acesso ao Programa Adaptar, mas sinceramente um empresário só pode contar consigo para levar o negócio para

a frente: recorri ao que podia, mas há muita dispersão nos apoios, estou indignado com o atraso nos pagamentos. Tenho projetos de expansão, que já tinha antes da pandemia, e continuo a acreditar que o empreendedorismo e que o financimento que pedi possa dar frutos durante o período de retoma.

Estou muito preocupado com a questão da contratação: tenho duas ofertas no centro de emprego há cinco meses. Estou a fechar ao sábado, e a casa trabalha bem nesse dia, porque não tenho pessoal. Não consigo encontrar ninguém para trabalhar.

2. Temos uma carga de impostos brutal, e é pelo alívio, na parte de produção, que poderíamos estar em igualdade de circunstâncias para concorrer com outros países, nomeadamente Espanha. Só como exemplo, o IVA a 6% e o combustível 30 cêntimos/itro mais barato. Aumentar salários não é tudo, nem chega para compensar os aumentos de energia, do combustível, etc. Começaria por aliviar os impostos para ajudar as empresas. Um país que não produz, não caminha para sítio nenhum. Os preços não páram de subir, das palhinhas à tampas, aos copos, e claro que tenho que imputar ao cliente estes custos. O que sinto é que o empreendedorismo não é valorizado neste país, antes pelo contrário, é penalizado por uma sobrecarga de impostos que não acompanha a subida generalizada dos custos e impede o país de produzir e criar riqueza.

Quanto às políticas de emprego, o Governo deveria assumir outro tipo de postura relativamente às políticas de atribuição de subsídios de desemprego e ao funcionamento dos centros de emprego e criar mecanismos de atratividade para as funções, formação e consciência de que este é um setor de atividade diferenciado.

Hélio Gaspar, Grupo Frango Vaidoso (Setúbal)

1. Felizmente, temos estado a ultrapassar, se calhar um bocadinho contrário à maioria, mas o negócio encontra-se numa posição muito boa, e de alguma forma fizemos coisas diferentes daquilo que se estava à espera, pois procurámos arranjar soluções tendo em conta os desafios que estavam a acontecer. Atualmente a empresa encontra-se a crescer 36% em relação ao período homólogo do ano passado. Estou à espera que cada vez seja melhor e felizmente nas duas empresas que tenho está acontecer isso.

2. O Governo deveria libertar mais apoios, diretos ou indiretos, por via do alívio da carga fiscal, para as pessoas que estão em mais dificuldade nesta área da restauração e percepcionar os diferentes nichos de negócio. Seria extremamente importante para os empresários conseguirem respirar um pouco mais e terem a capacidade de inovação/expansão tendo em conta os negócios que estão a pensar fazer. Esta é uma atividade que está em evolução e é fundamental para o crescimento do País e não pode ser esquecida.

José Madeira, Hotel Oslo/Hotel Bragança (Coimbra)

1. O negócio tem estado péssimo. Tivemos uma quebra de mais de 70%, deixamos de ter ocupações 80%,90% para passarmos a ter de 5%, 10%. A quebra tem sido geral, a única coisa que mexeu um bocadinho foi setembro/outubro mas não se trabalhou.

2. A promoção está descuidada, segundo a minha opinião, é importantíssima. É o que se vê em outros países e Portugal não se está a fazer.

José Manuel Neves, Restaurante Íntimo (Beja)

1. O negócio encontra-se, em termos técnicos, numa situação de lucro. Em termos de turnover não é assim muito animador. Nós adaptamos um pouco a nossa oferta com takeaway, pelo menos deu para não despedir ninguém. Houve uma grande procura mas tivemos que baixar os preços drasticamente, só mesmo para fazer breakeven porque, se não, não conseguíamos. A procura das pessoas é sempre pelo preço mais barato. Nós tivemos que ir à procura do cliente, baixando os preços drasticamente e oferecendo essa vertente do takeaway. Praticamente trocar dinheiro pelos produtos. É uma situação de breakeven e o pouco que dêsse de lucro seria para pagar a renda, as obrigações fiscais e a falta de ajuda do Governo.

2. Na minha opinião é a correção a sanidade fiscal. Obrigar toda a gente a declarar tudo o que ganha, que é para dar liquidez ao Estado e, equilibrando a situação económica e liquidez, atribuir incentivos à criação de riqueza. Isto tem que passar obrigatoriamente pela redução da carga fiscal, ou ter um prolongamento das obrigações fiscais, porque é desmoralizador. Se formos a fazer contas, são cerca de 70% que fica para o Estado em impostos diretos e indiretos, resta-nos muito pouco para pagar salários e para investir. Esta atividade precisa de investimento e não há nenhum incentivo para as micro e médias empresas.

Margarida Novais,Vicentina Aparthotel (Aljezur)

1. Parece que todos os dias estamos a retomar novamente, mas depois há outros dias que nos desmotivamos porque voltam a haver cancelamentos. A verdade é que a redução das restrições, já se refletiu no aumento de reservas para a semana, portanto penso que está a chegar o dia de luz que tanto

esperávamos. Eu penso que este verão finalmente vai ser melhor. O ano passado foi um verão bom e teve bastante procura, mas nada que se equipare ao verão de 2019.

2. O Governo tem que estar um bocadinho mais do lado das empresas porque estamos as empresas de hotelaria e restauração estão a passar uma fase muito crítica e vejo aqui alguns colegas na minha zona que já fecharam o negócio. Os que não fecharam vêem-se aflitos por causa dos impostos para pagar, a renda, a água, a luz, temos as despesas fixas que essas nós nunca podemos deixar de pagar. Portanto o alívio da carga fiscal seria uma ajuda grande, pois temos custos enormes: o Governo tem que ter a noção de que as empresas de hotelaria e restauração como empresas são as mais frágeis neste momento.

Pedro Marques, Pastelaria Nené (Cruz Quebrada – Lisboa)

1. Nunca criei expetativas, sempre fui muito realista durante estes dois anos face ao que estava a acontecer e creio que antes de março é ir gerindo o negócio. Tive impactos na faturação na ordem dos 80% e, com 16 empregados, eu e os sócios tivemos que nos endividar para salvar a pastelaria. Para nós foi fundamental o Programa Apoiar.pt, e tivemos as ajudas na totalidade, derivado ao nosso histórico antes da pandemia. Se nós conseguimos sobreviver e conseguimos os apoios na totalidade foi porque sempre cumprimos com as nossas obrigações.

2. Todos nós sabemos que a pandemia não afetou igualmente todos os negócios, houve assimetrias geográficas e outras. Assim, creio que os negócios que tivessem quebras superiores a 40% deviam ter ajudas para alavancar o negócio. O Programa Apoiar.pt é fundamental, nomeadamente relativamente aos três meses da variante COVID-19 Ómicron porque, em termos económicos, foi muito mais impactante do que as outras variantes: imensos estabelecimentos estiveram abertos, sem clientes, sem apoios e sem turismo. Tivemos um verão fantástico e em cinco meses conseguimos amealhar um fundo de caixa, que se esgotou neste período em que a Ómicron foi prevalente. Vamos arrancar agora sem qualquer reserva, porque tudo o que amelalhámos foi para suportar uma casa aberta sem clientes. A quebra este ano foi muito superior à do ano passado, seria fundamental o Governo abrir o Apoiar.pt para as empresas que tiveram uma quebra superior a 40% na sua faturação para termos um balão de oxigénio para suportar tudo o que aí vem.

Rogério Malheiro, Restaurante Gaspacho e Migas (Lagoa)

1. Estou no borderline porque o restaurante abriu um mês antes do início da pandemia e o que nos salvou foram as reservas que tínhamos e os empréstimos do fundo de

tesouraria do Turismo. Estou esperançado que as coisas melhorem e isso depende realmente de aliviarem as medidas restritivas. Não acredito que seja já no início deste ano, porque as pessoas ainda estão com muitos receios e até voltarem a entrar nos estabelecimentos de uma forma pacífica será um processo de habituação.

Outra situação preocupante é a a falta de mão de obra. Mais do que mão de obra qualificada, precisamos de pessoas para trabalhar e não há. Por outro lado, com impostos sobre o trabalho tão elevados, ainda mais em situação de crise, um empresário pensa duas vezes antes de contratar. E os incentivos à manutenção dos postos de trabalho chegam atrasados para complicar ainda mais a nossa vida neste período.

2. Penso que as medidas ideais seriam uma redução do IVA, na restauração temos dos IVA mais caros da Europa porque compramos os produtos a um IVA que varia entre 6% a 13% e vendemos de 13% a 23%, isso tem um peso muito significativo. O Governo devia ter uma medida para baixar significativamente a TSU durante este período. Com oito empregados só em TSU foram quase 5.000€, é uma loucura. Temos mantido os postos de trabalho desde o início, temos tido consistência, mas os impostos sobre o trabalho, numa situação de crise, são muito elevados.

Rosa Alves, Hotel La Fontaine (Aveiro)

1. Estou à espera do verão, da nova época alta, mas ainda estamos no inverno, e está tudo parado. Noto uma recuperação, mas uma recuperação muito pequenina para aquilo que era a situação do turismo.

2. Deixar de assustar as pessoas e levantar as restrições sanitárias, de outra forma os hotéis que estão com problemas vão mesmo fechar, outros mantêm-se abertos porque são uns guerreiros, pois as ajudas não foram muitas porque alguns projetos e financiamentos que existiram foram muito curtos: ao fim de dois ou três dias as candidaturas já estavam fechadas. Os pequenos e médios empresários ficaram sem acesso a financiamento, portanto seria importante libertar apoios para quem não teve acesso.

Rui Amorim, Palácio Bar-Restaurante (Aveiro)

1. Enormes dificuldades financeiras. Perdemos clientes e nota-se uma grande alternância em termos da clientela, na assiduidade.

2. Deviam ser criados novos fundos para as empresas, com uma moratória, período de carência, perdão parcial da dívida, mas acima de tudo acho que uma boa ajuda do Governo seria do ponto de vista das obrigações fiscais, Segurança Social, IVA, IRS, havia aqui uma carência durante algum período para as empresas poderem fazer face às suas necessidades de tesouraria

Durante 24 meses suspendia-se os pagamentos e depois definia-se um prazo para os liquidar. Eu não peço perdão, peço é um adiamento.

Sara Sobral, Restaurante Cimas (Monte Estoril – Lisboa)

1. A sensação que eu tenho é que a restauração foi um ‘saco de pancada’ nestes dois últimos anos. Nós somos proprietários do edifício onde está localizado o restaurante, o que nos ajudou bastante. Mas todos os meus colegas que têm que pagar rendas, vivem um aperto enorme. O sistema do Lay-off, da primeira vez, foi muito confuso, desta segunda vez menos. Ao nível das medidas implementadas, ou há muita desorganização do Estado ou há má-fé e dou exemplos: no âmbito do Incentivo à Normalização da Atividade Empresarial, do IEFP, tenho o processo todo completo, ainda aguardo a segunda tranche, que já devia ter sido paga e o que me respondem é que não sabem quando vai ser pago; em matéria de Segurança Social (SS), havia supostamente uma benesse de 50% a pagar pela entidade patronal, mas nós tivemos que pagar a 100%. Continuo a ter um valor em crédito que a SS não sabe quando vai pagar. Não conto com o Estado para nada, não é confiável. Nós cumprimos todas as nossas obrigações para com o Estado, fornecedores e colaboradores, porque tínhamos um fundo de maneio bastante alto quando a pandemia começou. Mas acredito que esta situação tenha atirado muitas microempresas para a falência porque é uma situação ingerível. Fomos muito maltratados e, se compararmos com outros países, como França ou Alemanha, estamos muito aquém. Nesses países a restauração foi alvo de cuidados que aqui não tivemos.

Acho que somos uns heróis: aqueles que sobreviveram reinventaram-se. No meu caso, abri uma esplanada e consegui aumentar as vendas, as entidades privadas têm sempre que encontrar alternativa para reslver os problemas, tentamos colmatar o melhor que pudemos.

2. A redução do IVA é central: há uma desproporção enorme dos produtos/serviços a 13% e a 23%: ou seja os 23% representam cerca de um terço do valor absoluto que pago em IVA total. SS tem taxas enormes. A redução dos custos de contexto e o alívio da carga fiscal seria o mais adequado para fazermos face ao aumento dos custos de energia. No meu caso fui confrontada com um aumento da fatura de energia na ordem dos 300%, que consegui negociar para 50%. Tudo isto tem reflexos: queria aumentar os meus 10 empregados, que o ano passado nem férias tiveram, e não consigo. Isto é uma situação transversal e aflitiva para todos os setores de atividade, não é um exclusivo da restauração, mas com o que o setor sofreu, o impacto é maior. E tudo isto tem um reflexo no aumento das matérias-primas e obviamente tenho de refletir este aumento de custos ao cliente. Outra situação

preocupante é a falta de recursos humanos: existe uma falta profunda de recursos humanos e recursos humanos qualificados não há. Espero que não haja devaneios na legislação laboral no sentido de reduzir a semana de trabalho, se não as casas fecham e deixamos de ter oferta nesta área.

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